Não sou fotógrafa, mas amo a fotografia tanto quanto se eu fosse. Foi esse amor que me fez interromper uma história de mais de 10 anos de atuação como publicitária e sócia de agência para me tornar designer de álbuns.

Minhas primeiras lembranças em relação à fotografia é folheando os álbuns de família. Lembro do quanto eu achava o máximo ver meus pais ali “crianças como eu”, depois jovens, o casamento, a gravidez. Lembro da aventura de sentimentos que era revelar um rolo de filme: ansiedade, euforia, tensão, tudo junto.

Daí veio a faculdade de comunicação e as cadeiras de fotografia com certeza foram as mais legais do curso.

Quando apertei o play na minha missão de vida nº 1 “conhecer o mundo”, a fotografia se tornou um modo particular de curtir cada lugar que eu passava. Passei a prestar atenção nas janelas, no chão que pisava, nas vitrines de padaria, nas pessoas e nada escapava da minha lente amadora. Eu era capaz de voltar com mais de 3.000 fotos de cada viagem que eu fazia e aquelas fotos precisavam de um lugar pra viver e não seria no HD do meu computador (que por sua vez, é aquele ser imprevisível que me fez perder vários desses momentos… 1 minuto de silêncio).

Estávamos na era da fotografia digital e os fotolivros já tinham vindo pra ficar. Selecionar as fotos da viagem, tratá-las e “fazer a montagem” era um programa de domingo. E quanto prazer era receber esses álbuns, carregar pra todo canto, mostrar pra todo mundo, contar a história por trás da foto, colocá-los no cantinho mais especial da casa para ver e reviver aqueles lindos momentos sempre que quisesse. Esse era o sentido: REVIVER. Passei a colecionar momentos que hoje são meu portfólio de vida e que me trazem uma sensação tão linda de “to vivendo” cada vez que olho pra mesa de centro da minha sala.

Daí vieram os amigos achando o máximo, querendo igual e pensei: cara, por que não viver disso? Foi quando comecei a pesquisar sobre o mercado de diagramação e eis que se abre a-whole-new-world a minha frente.

Não, não foi fácil a decisão de largar tudo, até porque “peraí… eu gosto do que eu faço”. Mas nesse processo eu fui apresentada a uma nova perspectiva de vida: trabalhar de casa, ou melhor, de qualquer lugar do mundo, sem grandes stresses, modelo de negócio simples…

(meses, dias e horas depois de crise existencial…)

Por que não dar uma chance?

Passei um ano inteiro com as minhas noites e fins de semana comprometidos com a diagramação enquanto conciliava o trabalho como publicitária. Morri pro mundo. Mas o mais difícil foi ter que esperar pelo momento de viver exclusivamente de um novo modelo de negócio, que iria me trazer mais leveza, mais paz, mais paixão, mais liberdade, mais tempo (cof cof), mais mobilidade, mais VIDA.

Mas esse 1 ano foi mais que necessário. Primeiro para entender o mercado, segundo porque é preciso TEMPO para rentabilizar qualquer negócio. Afinal, as contas chegam pontualmente e eu, que já não era uma menina e tinha uma casa pra sustentar, não podia me dar ao luxo de largar tudo e começar do zero. Era preciso migrar aos poucos.

Quem conhece o mercado publicitário sabe o quanto ele pode ser cruel com seus servidores e a ironia é que se não fosse essa crueldade, não seria uma escola tão completa. Se não fosse tudo o que eu aprendi, todos os profissionais incríveis que convivi, todos os layouts que aprovei e reprovei, eu não seria hoje a Catarina, designer de álbuns. Não me arrependo de meio expediente a mais que dediquei à agência. Mas é preciso muita, muita paixão pra se manter nesse mercado. Você, literalmente, troca anos de vida por uma carreira, vive de apagar incêndio e de sorrir pra quem gosta e quem não gosta. E eu, naquela altura do campeonato, já não estava mais disposta.

Como bem disse o artista de rua – e marmiteiro – Eduardo Marinho: eu sou extremamente ambicioso. Eu sou ambicioso de uma forma que ninguém pode conceber. Porque dinheiro, conforto, estabilidade, luxo, pra mim é pouco, eu quero mais. Eu quero tudo que eu puder levar dessa vida”.

Esse é um propósito que vem inundando a vida de muitas pessoas de minha geração, publicitários e não publicitários. Tenho muitos, muitos, amigos que fizeram e estão fazendo isso, deixando seus empregos pra viverem dos seus projetos pessoais. Sempre que me perguntam sobre essa decisão eu respondo que sou suspeita pra opinar, porque pra mim deu certo. Basta dizer que 10 anos depois eu voltei a dançar – uma das minhas maiores paixões e que tinha largado completamente depois de abrir agência.

Por fim: eu acredito na ENERGIA. Quando a energia tá faltando, reconsidere. E quando tem energia sobrando, canalize. Use essa energia para simular o seu projeto e veja até onde ela pode durar. Converse com pessoas que passaram por isso, projete, faça testes, e nesse processo, naturalmente, sua empolgação pode crescer ou simplesmente se apagar.

Existia uma paixão dentro de mim. Essa paixão se tornou uma prática, hobby. Eu só transformei a prática em profissão. E nessa história toda, o único conselho que posso deixar é: se você tem uma paixão e quer viver disso, vai lá e faz.

Catarina Souto

#édebaunilha

As fotos que ilustram esse post são os meus olhares pelos lugares que passei. <3